josé cunha-oliveira 
iniciação poética
iniciação poética

 

chegaram as andorinhas e as cegonhas. 
vi-as chegar em grandes bandos. 
e desataram a escolher os seus lugares. 
está tudo a postos
e à espera. 
gostava de ser como elas, 
de não ter que pensar nada 
sobre a política e as finanças. 
gostava simplesmente de ser. 
mas já que não pode ser, 
que ao menos nos valha a primavera...

(josé cunha-oliveira, 16-02-2013) 

 

que mundo é este? 
meu deus, 
meu deus morto,
diz-me só 
por que morreste?

(josé cunha-oliveira, 16-02-2013)

 

o dia está de cinzento
por fora e por dentro.
deixem-me vaguear
pelo meu vagar
entre o que existe e não existe,
nem alegre nem triste.
se me virem por aí,
não sou eu,
são os meus pensamentos
em forma de gente.

(josé cunha-oliveira, 07-01-2013)

 

afinal, hoje é só hoje
e não há nada de especial em hoje ser hoje.
ontem foi hoje como hoje é hoje
e amanhã vai ser hoje, não tarda nada.
mas o que distingue hoje
de outro dia qualquer
é que nem é ontem
nem amanhã.
é simplesmente hoje. 
não posso lembrar nada sobre ele 
nem futurar dele coisa alguma.
estou aqui entre as memórias
e os sonhos que transporto.
se ladrasse, seria um cão
ou talvez não.

(josé cunha-oliveira, 27-12-2012)

 

o outono já chegou há muito tempo,
e ainda há quinze dias era verão.
caiem-me as folhas.

estou menos vivo que morto,
é tudo lento e difícil.
caiem-me as folhas.

se ao menos sobre as folhas
que me caiem
o meu fruto caísse
e dele eu renascesse.

bem sei.
é sempre assim
que vejo a vida
a cada chegada do outono:
mortiça, dormente, decadente,
como uma estrela cadente
esmorecida.
 
(josé cunha-oliveira, 26-09-2008)
 
 
tudo é vida, tudo é esforço, tudo é hora,
se o viço da flor ainda floresce,
se a alegria de viver não foi embora,
se aquilo que aprendemos não esquece...
 
(josé cunha-oliveira, 31-07-2011)
 
 
ó da guarda, roubaram-me o sol!
e eu que vou precisar dele, não tarda...
e eu que preciso dele, não tarda,
tenho esta névoa em si bemol...
ai ó jesus, ó da guarda;
que me roubaram o sol.
 
(josé cunha-oliveira, 19-07-2011)
 
 
bem, é claro que o universo não tem fim,
porque se o tivesse, havia de haver além do universo
muitas outras coisas, versos e reversos,
e eu não chegaria lá com os dedos da imaginação.
assim, também não chego,
mas não me importo.
quando engravido de mim,
aborto.
 
(josé cunha-oliveira, 12-08-2011)
 
  
não me apetece dizer nada.
absolutamente nada.
quero comunicar apenas o silêncio.
e quem ainda assim quiser um pensamento
pense-o.
 
(josé cunha-oliveira, 20-08-2011) 
 
 
hoje estou numa de mainstream. 
a cabeça que costumo usar
para pensar pela minha cabeça
está de férias numa praia tropical.
e é muito melhor assim.
fim.
 
(josé cunha-oliveira, 21-08-2011)
 
 
meu avô era pedreiro
tinha um martelo e um pico 
era danado prás moças
e por isso aqui me fico
 
porque a pedra tem segredos
não é fácil ser pedreiro
partir pedra por partir
parte-a qualquer marteleiro.
 
(josé cunha-oliveira, 16-09-2011)
 
 
passa-se tanta coisa na minha rua
e, afinal de contas,
nada do que se passa na minha rua tem importância.
sei que se passa exatamente a mesma coisa que nas outras ruas,
que nas casas da minha rua é tudo como nas casas das outras ruas,
porém aqui, na minha rua, nada tem importância.
na minha rua é tudo normal, tudo igual às outras ruas,
nem o homem que morreu é notícia,
nem a moça que anda por aí ao deus dará,
nem o homem que, sempre à mesma hora exata,
desata a vociferar contra gente incerta
os vapores do vinho e o metabolismo de um fígado cirrótico.
se querem uma rua normal, uma rua que ninguém dá por ela,
venham à minha rua. é ela.
 
(josé cunha-oliveira, 29-09-2011)
 
 
hoje não estou.
se baterem à porta não abro,
se o telefone tocar não atendo,
se o correio vier não leio
e se alguém me fala não entendo.
não espero ninguém
não espero nada.
do mundo real não quero nem um pio.
está tudo aqui dentro de casa,
como um mundo à prova de desgraça
morava no castelo do príncipe Sidharta.
 
(josé cunha-oliveira, 3-10-2011)
 
 
que bom
apanhar chuva a dois
debaixo do mesmo chapéu,
correr para casa
e depois
sentir o vento lá fora
a dizer-nos adeus.
que bom é o outono
que bom é ter sono
e não dormir 
até cada um de si 
tornar a ser dono.
 
 
(josé cunha-oliveira, 26-10-2011)
 
 
chove? deixa chover,
que enquanto a chuva chove
e a nós não incomode,
ficamos a ver chover.
que prazer!
 
(josé cunha-oliveira, 02-11-2011)
 
 
venham festejar o sol menino
que nascido é
além no monte
filho da noite longa
cantem e dancem
em Belém ou mais além.
 
(josé cunha-oliveira, 22-12-2011)

 
apetece-me escrever
e nada dizer.
simplesmente
dar-me sinal que estou vivo,
que esta aparência de aparência
tem um fundo de verdade,
ainda que dando-me sinal que estou vivo
seja apenas,
possivelmente,
uma aparência mais.
mas, aparência por aparência,
prefiro a que gosto mais.
estou vivo.
querem mais?
 
(josé cunha-oliveira, 15-02-2012) 
 
 
não sei se chove, se quê.
hoje não estou para aí virado.
apetece-me ir ao faz de conta
que faz de conta 
e fazer de conta não sei de quê.
logo se vê.
 
(josé cunha-oliveira, 15-02-2012) 
 
 
não sei de que amor hei de falar
porque sempre que falo de amor
ele muda tanto de cor
que ora parece uma flor
que floresce
ora parece
simplesmente uma flor.
mas seja como for
é uma flor que não esquece.
mesmo quando parece.
 
(josé cunha-oliveira, 16-02-2012)
 
 
ah, como é engraçado
engraçar com alguém…
descobrir 
na graça que que não te via
a graça que agora tens…

olho e de repente
descubro a graça que dás
à graça de toda a gente.

talvez o mundo pudesse
passar sem a tua graça
(nem sei se é graça o que tens,
se é teres graça para mim),
mas assim com a tua graça
ou graça que tens para mim,
olho o mundo com vontade
de gostar do mundo assim.
 
(josé cunha-oliveira, 16-02-2012)
 
 
o que há no mar
é mais que o mar
é um infinito 
que no fim começa
outros mundos,
outros segredos sem fundo.
e na minha casca de noz
o percorro,
e em conhecê-lo
me conheço
e descubro 
no fim de mim
outros segredos sem fundo.
 
(josé cunha-oliveira, 16-02-2012)
 
 
que importa que não façamos Carnaval, 
se o Carnaval existe?
que importa que não façamos Páscoa
se a Páscoa existe?
que importa que queiram abolir 
o São João e o Natal,
se a Terra não para de girar
e o tempo não para de mudar
e a vida não deixa de existir?
querem fazer de nós o quê?
robôs, daqueles que é só ligar
e logo começam a trabalhar
de dia e de noite,
sem um porquê,
sem sonho nem festa,
sem chuva nem sol,
sem frio nem calor?
(e já nem digo amor)
ó minha gente, que horror!

ah, é verdade,
as amendoeiras estão em flor...
façam já um decreto, por favor,
e obriguem-nas a florir
todos os dias,
sem tolerâncias de ponto.
 
(josé cunha-oliveira, 20-02-2012)
 
 
 
êxodo:
 
 
naquele tempo
caíram sete pragas 
sobre o Egito.
e posto isto
foi dado o dito 
por não dito.
o Faraó expulsou o povo
matou Moisés
e mandou minar
o mar Vermelho.
apagou do dicionário
a palavra "Terra Prometida".
e Deus do alto do Sinai
não fez nada.
ficou a ver no que dava.

(josé cunha-oliveira, 22-02-2012)
 
em vez da coroa de espinhos 
ponho na cruz uma rosa
e não vai mal a ninguém
diferentes são os caminhos
nesta Via Dolorosa
para ir daqui a Além
mas espinhos por espinhos
aceito os que a rosa tem
 
(josé cunha-oliveira, 06-04-2012)
 
 
procurem-no onde quiserem, 
ou, se quiserem, não o procurem.
chamem-lhe o que quiserem
ou não lhe deem nome algum.
digam que existe, que não existe, 
ou que não existe nem deixa de existir.
mas falar dele é dar uma forma
à ideia ou não-ideia,
é conceber a sua existência ou não existência,
é ocupar-se dele como sendo.
e, por conseguinte,
verso e reverso,
vejo nele inteiro
o universo
 
(josé cunha-oliveira, 06-04-2012) 
 
 

às vezes apetece-me dizer não
mas é tão inútil dizer não
as coisas acontecem na mesma
ou desacontecem se tiver que ser
que em vez de dizer não
vou aprender a nadar
eu já sei nadar
mas é que aprendi a nadar
num rio mau 
e ganhei medo da água
que mágoa
de jeito que nem sim, nem nim, nem não
dlão, dlão.

(josé cunha-oliveira, 06-06-2013)

 

 

tenho mais sonhos
do que é permitido por lei
de jeito que passo a vida
a pagar multas
por sonhar demais
não são sonhos desses
são destes
que fazem de mim um sonhador

(josé cunha-oliveira, 06-06-2013)
 
 
 
 
o conhecimento do conhecimento
é um quadrado
com um conhecimento de lado
e o conhecimento desse conhecimento
é um cubo
por onde teimosamente subo
acontece que chego a meio
e caio
catrapum em cheio
desmaio
mas quando acordo insisto
não resisto.
.
(josé cunha-oliveira, 07-06-2013)
 
adoro a matemática
a mais fleumática
e a menos certa,
a menos dançante
e a mais acrobática.
adoro a fórmula, a equação,
que até a trovoada tem.
é a linguagem de deus,
ou, se quisermos, também,
o contradiscurso de satã.
ou se quisermos, porém,
a linguagem das coisas
como as coisas são.
umas vezes certas, exatas,
outras incertas e chatas
e outras nem sim nem não.
mas sempre matemática.
até o sexo oral é matemática
e sendo a pensar em Jesus Cristo,
não é pecado, está visto.
.
(josé cunha-oliveira, 23-06-2014)
 
 
 
o nosso pensamento
e a nossa ação
às vezes entendem e fazem
o que parece
não ter entendimento
nem construção
compõem por assim dizer
o que antes era amorfo
e confuso
e por encanto ou mistério
ou simples ministério
a ordem emerge do caos
.
(josé cunha-oliveira, 20-02-2015)
.
.

às vezes a vida é bela,

outras vezes é só vida,

umas vezes corre mal

outras vezes corre bem,

que nisto de vida vivida

ora chove ora faz sol,

ora aquece ora arrefece,

e é a graça que tem.

 

(josé cunha-oliveira, 14-12-2012)

 

finalmente, 
uma manhã de nevoeiro.
gosto das manhãs de nevoeiro.
sem dúvida,
depois de uma batalha mal perdida
não há nada melhor
do que uma manhã de nevoeiro.
dorme a batalha esquecida
e pode vir Dom Sebastião, 
ou talvez não 
(josé cunha-Oliveira, 14-08-2017)